Top 5 Jogos de PS2 que Envelheceram Mal: E por que ainda os amamos
A memória afetiva é uma coisa engraçada. Ela funciona como um filtro de Instagram para o nosso cérebro, suavizando as bordas serrilhadas, aumentando a taxa de quadros por segundo e, convenientemente, nos fazendo esquecer dos controles de câmera que pareciam ter sido programados por alguém que odeia a humanidade. Quando pensamos na era de ouro do PlayStation 2, lembramos de épicos cinematográficos e revoluções na jogabilidade. Mas o que acontece quando tiramos os óculos da nostalgia e colocamos o disco no console em 2024?
A realidade, meus amigos, pode ser dura. Muitos jogos de PS2 que definiram nossa infância e adolescência são, tecnicamente falando, uma bagunça para os padrões modernos. Controles “tanque”, sistemas de mira que dependem de sorte, loadings que duram uma eternidade e câmeras que insistem em mostrar a parede em vez do inimigo.
No entanto, este artigo não é um ataque gratuito. É uma carta de amor honesta. Vamos listar 5 clássicos absolutos que envelheceram mal na parte técnica, mas que continuam sendo obras-primas essenciais. Se você está pensando em revisitar esses títulos, prepare-se para brigar com o controle – e amar cada segundo disso.
1. Grand Theft Auto: San Andreas (A Mira e o Framerate)
Começamos com o rei. GTA San Andreas é, indiscutivelmente, um dos jogos mais importantes da história. A escala do mapa, a trilha sonora, a narrativa de CJ e a liberdade de customização eram impensáveis para a época. Mas você já tentou jogar a versão original de PS2 recentemente?
O que envelheceu mal:
Primeiro, o sistema de mira. Tentar acertar um Ballas em movimento com o sistema de lock-on original é uma experiência de frustração pura. A mira trava no pedestre errado, no pneu do carro ou no nada, enquanto você é alvejado. Além disso, o framerate (taxa de quadros). No hardware original, o jogo rodava frequentemente abaixo de 20 FPS quando havia explosões ou muita ação na tela. A neblina de distância (draw distance) era usada para esconder o fato de que o mundo estava sendo desenhado a dois metros do seu nariz.
Por que ainda amamos:
Porque a alma do jogo é imortal. A escrita dos diálogos, a sátira da cultura americana dos anos 90 e a sensação de progresso – de um gângster de rua a um magnata – ainda são inigualáveis. Mesmo com a mira ruim, roubar um caça na Área 69 ao som de Free Bird continua sendo uma das experiências mais libertadoras dos videogames.
2. Kingdom Hearts (A Câmera do Inferno)
A mistura improvável de Disney e Final Fantasy conquistou o mundo. A história é complexa (até demais), a música é divina e o carisma é infinito. Mas o primeiro jogo da franquia tem um vilão maior que Ansem: a câmera.
O que envelheceu mal:
Os botões L2 e R2 giravam a câmera. Só de escrever isso, já sinto uma dor fantasma nos dedos. Não havia controle livre no analógico direito como nos jogos modernos (isso só foi corrigido nas versões Final Mix e remasterizações posteriores). As seções de plataforma, como na selva de Tarzan (Deep Jungle), são um teste de paciência budista. Você pula, a câmera gira sozinha, você cai. Repita 50 vezes. O combate, embora divertido, era travado e a detecção de colisão nem sempre ajudava.
Por que ainda amamos:
A magia. Não existe outra palavra. Ver o Pato Donald curando o Cloud Strife é algo que nunca deixará de ser especial. A atmosfera de melancolia e aventura, somada à trilha sonora de Yoko Shimomura, faz com que a gente perdoe a câmera horrível só para ver o próximo mundo.
3. Resident Evil: Code Veronica X (O Tanque 3D)
Muitos consideram este o “verdadeiro” Resident Evil 3. Ele trouxe a franquia para o 3D real (cenários poligonais em vez de pré-renderizados) e tem uma das melhores histórias da saga. Mas ele vive em um limbo estranho de design.
O que envelheceu mal:
Os controles de tanque. “Cima” anda para frente, “Esquerda” gira o personagem no próprio eixo. Isso funcionava bem com câmeras fixas em cenários 2D, mas em Code Veronica, a câmera às vezes se move e o cenário é 3D, o que causa uma desconexão mental. Além disso, é um jogo punitivo ao extremo. Se você esquecer o extintor de incêndio no começo do jogo (um item que parece inútil), você perde uma das melhores armas horas depois. O design de “armadilhas para o jogador” é algo que o design moderno felizmente abandonou.
Por que ainda amamos:
A atmosfera gótica e a trilha sonora operística criam uma tensão que os jogos de ação modernos (como RE4, 5 e 6) perderam. É um jogo de terror genuíno, onde cada bala conta e o medo é real. Se você usar os Save States que discutimos no artigo anterior, a experiência fica muito mais palatável hoje em dia.
4. Tomb Raider: Angel of Darkness (A Ambição Quebrada)
Ok, este é polêmico. Angel of Darkness é a ovelha negra da família, mas tem uma base de fãs leal. Ele tentou ser um RPG, um jogo de furtividade e uma aventura de ação, tudo ao mesmo tempo.
O que envelheceu mal:
Tudo o que envolve controle. Lara Croft se move como se estivesse debaixo d’água. Há um atraso (input lag) notável entre apertar o botão de pulo e ela realmente pular. O sistema de “ficar mais forte” empurrando caixas para poder abrir portas é uma mecânica de RPG forçada que quebra o ritmo. É um jogo visivelmente inacabado, lançado às pressas para coincidir com o filme.
Por que ainda amamos:
Pela ambição e pela narrativa. É o Tomb Raider mais sombrio e maduro. A história envolve alquimia, assassinatos em Paris e uma Lara acusada de um crime que não cometeu. A direção de arte urbana e gótica é fantástica. Para quem tem paciência de “domar” os controles, existe uma aventura cult escondida ali.
5. Need for Speed: Underground (A Física de Sabão)
“Ron don don”. Só de ler isso você ouviu a música. NFSU definiu a cultura do tuning nos games. Mas voltar para ele depois de jogar Forza Horizon ou NFS Unbound é um choque de realidade.
O que envelheceu mal:
A física. Os carros não têm peso; eles deslizam na pista como se o asfalto fosse feito de manteiga. A sensação de velocidade é incrível, mas a precisão é nula. Além disso, existe o infame “Rubber Banding” (elástico): não importa o quão bem você dirija, a IA do computador sempre vai te alcançar magicamente na última volta, tornando a habilidade menos importante que a sorte no tráfego.
Por que ainda amamos:
A customização e a cultura. Nenhum jogo capturou a vibe “Velozes e Furiosos” do início dos anos 2000 tão bem quanto este. Colocar neon embaixo do carro, encher o porta-malas de som e pintar o capô de fibra de carbono virtual ainda é terapêutico. É um jogo de estilo sobre substância, e o estilo é inesquecível.
Conclusão: O Charme da Imperfeição
Revisitar esses jogos de PS2 nos ensina algo importante sobre a indústria: a perfeição técnica não é tudo. Hoje, temos jogos que rodam a 60 FPS cravados, com controles responsivos e gráficos fotorrealistas, mas que não têm metade da alma de um San Andreas todo bugado.
Esses jogos envelheceram mal? Sim, como leite fora da geladeira em alguns aspectos. Mas nós também envelhecemos. E assim como aceitamos nossas próprias dores nas costas e rugas, aceitamos os controles ruins desses clássicos porque o que eles nos fizeram sentir foi real. E isso, nenhum polígono serrilhado pode apagar.
FAQ – Perguntas Frequentes
Vale a pena jogar as versões originais ou os Remasters?
Depende. Para Kingdom Hearts, as versões “Final Mix” (disponíveis no PS4/PS5/PC) são infinitamente superiores pois corrigem a câmera. Para GTA San Andreas, a versão original de PS2 (emulada ou no console) ainda é considerada por muitos superior à “Definitive Edition”, que introduziu novos bugs e mudou a direção de arte.
Como melhorar a imagem dos jogos de PS2 em TVs modernas?
Se você está usando o console original, evite o cabo AV (amarelo, vermelho e branco). Invista em um cabo Componente (5 pontas) ou um adaptador PS2 to HDMI de boa qualidade. Isso remove o borrão e deixa a imagem mais nítida, embora mostre mais os serrilhados.
O que é “Input Lag” mencionado no texto?
É o atraso entre você apertar o botão no controle e a ação acontecer na tela. Em jogos antigos rodando em TVs modernas de LED/LCD, esse atraso pode ser grande se a TV não estiver no “Modo Jogo”.
Por que os jogos antigos eram tão difíceis?
Muitas vezes a dificuldade vinha das limitações de controle e câmera, não do design dos inimigos. Em outros casos, era uma forma de fazer o jogo durar mais, já que os cartuchos e discos tinham pouco espaço para conteúdo longo.
