O Guia do Colecionador Pobre: Dicas de feiras e trocas.
São 7 da manhã de um domingo. Enquanto a maioria das pessoas dorme, você está em pé, com um café aguado na mão, olhando para uma lona azul estendida no chão de uma praça. Em cima dela, uma mistura caótica de controles quebrados, cabos emaranhados, bonecos sem cabeça e, se você tiver sorte, um cartucho de Super Nintendo que o vendedor jura que “tá funcionando, só soprar”.
Essa é a realidade do colecionador brasileiro que não nasceu herdeiro. Enquanto o YouTube ostenta salas de jogos imaculadas com prateleiras de vidro e iluminação LED, a nossa batalha é na trincheira: na feira do rolo, no grupo de desapego do bairro e na OLX. E quer saber a verdade? A nossa vitória é muito mais doce.
Não existe sensação igual a encontrar um Metal Gear Solid original no meio de uma pilha de CDs piratas de pagode, pagando o preço de um pastel. Se você quer entrar nesse mundo sem vender um rim, precisa aprender as regras da rua.
Regra 1: O Facebook Marketplace é uma Selva (e você é o caçador)
Esqueça o Mercado Livre para garimpo. Lá, todo mundo sabe o preço das coisas. O ouro está no Marketplace do Facebook, onde a “Tia Neide” está vendendo o “videogame do meu filho que casou” por 50 reais.
Mas atenção: a velocidade é tudo.
- O Algoritmo: O Facebook te mostra o que você clica. Comece a clicar em todo anúncio de “videogame velho”, “fita de jogo” ou “playstation antigo”. Em dois dias, seu feed será só isso.
- Termos de Busca Errados: O segredo não é procurar por “Nintendo 64”. É procurar por “Nintedo”, “Nitendo”, “Jogo de fita”, “Video game velho”. Quem escreve errado geralmente não sabe o valor do que tem.
- A Negociação: Nunca pergunte “ainda está disponível?”. Isso é o que todo mundo faz. Já chegue com uma proposta: “Busco hoje por X reais”. Dinheiro na mão e retirada rápida fecham negócio antes que o vendedor pesquise o preço real no Google.
Regra 2: A Arte da Feira do Rolo
Toda cidade tem uma. Aquela feira de antiguidades, de “bagulho”, ou simplesmente a feira de domingo que tem uma barraca de eletrônicos.
Aqui, a psicologia é fundamental.
- A Cara de Pôquer: Se você ver um Chrono Trigger na caixa, não arregale os olhos. Não grite. Se o vendedor perceber que você achou ouro, o preço sobe na hora. Pegue o jogo, olhe com desdém, pegue outro jogo ruim (um FIFA 08) e pergunte: “Quanto faz nesses dois velhinhos aqui?”.
- O Pacote: Vendedores de feira querem se livrar do volume. Comprar um jogo por R20,00eˊdifıˊcil.ComprarcincojogosporR 50,00 é fácil. Sempre tente levar um lote.
- O Teste do Cheiro: Sim, cheire o cartucho/console. Cheiro de queimado (ozônio) é sinal de curto-circuito. Cheiro de mofo forte indica que a placa pode estar corroída.
Muitas vezes, nessas caixas de “tudo por 10 reais”, você encontra aquelas pérolas que citamos na nossa lista de 15 jogos de PS1 que todo mundo esqueceu. Jogos que não são famosos como Final Fantasy VII, mas que valem uma fortuna para o colecionador certo ou garantem horas de diversão.
Regra 3: Aprenda a Consertar (O “Lixo” dos Outros)
O colecionador pobre precisa ser, obrigatoriamente, um técnico amador.
Metade dos consoles vendidos como “com defeito” ou “sucata” na internet têm problemas ridículos de resolver.
- “Não liga”: Muitas vezes é só a fonte queimada ou um fusível de 50 centavos.
- “Não lê jogo”: No PS1 e PS2, muitas vezes é só limpar a lente com álcool isopropílico ou ajustar o trimpot (um parafuso que regula a potência do laser).
- “Botão falhando”: Sujeira. Abrir e limpar resolve 90% dos casos.
Comprar um Game Boy “quebrado” por R100,00,gastarR 20,00 em peças e ter um console que vale R$ 400,00 é a melhor forma de crescer a coleção. Você pode ficar com ele ou revender para financiar a compra do que você realmente quer.
Regra 4: Troca é Melhor que Compra
O dinheiro é escasso, mas o “entulho” é infinito. Sabe aqueles jogos que você já zerou e estão pegando poeira? Ou aquele celular velho na gaveta? Eles são moeda de troca.
Entre em grupos de WhatsApp de gamers da sua cidade. A troca local (mão a mão) elimina o frete e as taxas das plataformas.
A estratégia é o “Trade Up” (Troca Progressiva):
- Você tem um jogo de PS4 comum (valor R$ 50).
- Troca por dois jogos de PS3 mais antigos (valor somado R$ 70).
- Troca um desses jogos por um controle original (valor R$ 100).
- Vende o controle e compra o jogo que você queria.
Exige paciência? Sim. Mas é a única forma de transformar FIFA 17 em Elden Ring sem tirar dinheiro do bolso.
Regra 5: Cuidado com as “Repros” (Falsificações)
No mundo do colecionismo barato, o barato sai caro se for falso. O mercado está inundado de “Repros” – cartuchos falsificados modernos que imitam os originais.
- No Super Nintendo: Olhe os parafusos. Originais usam parafusos “Gamebit” (redondos), falsos usam Philips (cruz). O label (adesivo) original tem um brilho específico e é cortado na máquina; os falsos muitas vezes são colados tortos ou têm a imagem esticada.
- No GBA/DS: A cor do plástico e a fonte da letra “Nintendo” gravada atrás são os maiores delatores.
Não há problema em ter uma Repro se você só quer jogar e pagou barato (R30,00).Oproblemaeˊpagarprec\codecolecionador(R 200,00) em um cartucho que veio do AliExpress.
Conclusão
Colecionar sendo pobre não é sobre ter tudo. É sobre ter história. Cada item na sua estante vai ter uma narrativa: “Esse aqui eu achei no lixo”, “Esse eu troquei por uma bicicleta velha”, “Esse eu restaurei com as próprias mãos”.
Isso vale muito mais do que clicar em “Comprar Agora” e esperar o correio chegar. A caçada é parte do jogo.
E você? Qual foi o maior “achado” da sua vida? Aquele jogo que você pagou preço de banana e saiu correndo antes que o vendedor mudasse de ideia?
