Revisitando Mad Max (2015): O mundo aberto subestimado.
O céu fica roxo. O vento começa a uivar, não como um efeito sonoro de fundo, mas como um monstro se aproximando. De repente, o horizonte desaparece, engolido por uma parede de areia e relâmpagos. Seu carro, o Magnum Opus, treme. Peças de metal voam. Inimigos gritam “Kamikrazee!” e se jogam contra você.
Não existe, em toda a história dos videogames, uma representação de tempestade tão visceral quanto a de Mad Max (2015).
No entanto, é provável que você não tenha jogado essa pérola no lançamento. E a culpa não é sua. A Warner Bros. cometeu o erro estratégico de lançar o jogo no dia 1º de setembro de 2015. Sabe o que mais saiu nesse dia? Apenas Metal Gear Solid V: The Phantom Pain.
Engolido pelo hype da despedida de Hideo Kojima, Mad Max foi relegado à categoria de “jogo de filme” (embora não siga o roteiro de Fury Road). Quase uma década depois, revisitamos o deserto para afirmar: cometemos um erro. Este jogo é uma obra-prima subestimada.
O Deserto não é Vazio; é Solitário
A maior crítica que jogos de mundo aberto recebem hoje é o “inchaço”. Mapas gigantescos cheios de ícones inúteis, NPCs que falam demais e atividades repetitivas. Mad Max tem ícones? Tem. Mas a execução é diferente.
O deserto da Avalanche Studios (os mesmos criadores de Just Cause) é um personagem. Ele é vasto, opressivo e, acima de tudo, silencioso. A sensação de solidão é palpável. Você não é um herói salvando o mundo; você é um sobrevivente tentando consertar um carro.
Diferente de Far Cry, onde a cada 10 metros um tigre te ataca ou um NPC pede ajuda, aqui você pode dirigir por minutos ouvindo apenas o ronco do motor V8 e o vento. Essa calmaria torna os momentos de ação muito mais impactantes. Quando você vê poeira no horizonte, você sente medo, não tédio.
Se você gosta dessa imersão em mundos vastos, confira nossa lista de Top 10 Jogos Mundo Aberto PS4, onde discutimos outros títulos que acertam (e erram) nessa fórmula.
O Magnum Opus: O Tamagotchi de Metal
Em outros jogos, o carro é um meio de transporte. Se quebrar, você rouba outro. Em Mad Max, o carro é seu corpo. O jogo gira em torno da construção do “Magnum Opus”, sua obra-prima sobre rodas.
Você começa com uma sucata. A cada missão, a cada acampamento invadido, você consegue sucata para comprar um motor melhor, pneus para areia, arpões e lança-chamas. Existe um vínculo emocional real com a máquina.
O combate veicular é, sem exagero, o melhor já feito em um mundo aberto. Não é apenas “atirar e dirigir”. É físico.
- O Arpão: Você pode arrancar a roda de um inimigo, puxar o motorista para fora ou derrubar torres de vigia. A física dos cabos é satisfatória e pesada.
- Impacto: Bater em outro carro sente-se como uma colisão de toneladas de metal. O som de metal retorcido e explosões é “crocante”.
- Estratégia: Você precisa decidir se vai blindar o carro (ficando lento e pesado) ou deixá-lo leve para fugir.
É uma mistura de Twisted Metal com a física realista de Burnout, tudo envelopado na estética dieselpunk.
O Combate a Pé: Batman com Fúria
Quando Max desce do carro, o jogo adota o sistema “Freeflow” da série Batman Arkham. Você ataca, contra-ataca e esquiva. É derivativo? Sim. É ruim? De jeito nenhum.
A diferença aqui é o peso. Batman é um ninja; Max é um brigão de rua. Os golpes são brutais. Você sente os ossos quebrando. Max não dá piruetas; ele dá suplex, pisa na cabeça e usa facas. O “Modo Fúria”, onde a tela fica vermelha e seus golpes causam mais dano, transforma o combate em uma dança de violência extremamente catártica.
O jogo também brilha na sobrevivência. Água e comida são escassas. Você precisa comer larvas de cadáveres e beber água de poças radioativas para recuperar vida. Não é um simulador hardcore, mas é o suficiente para te lembrar que aquele mundo é hostil.
Onde o Jogo Tropeça (Mas se Levanta)
Não vamos mentir: Mad Max tem defeitos. A estrutura das missões pode ficar repetitiva. Invadir acampamentos segue sempre a mesma lógica: mate o sniper, derrube o portão, bata no chefe. A história é simples e o final é… divisivo (para dizer o mínimo).
Mas a repetição aqui é terapêutica. Existe um prazer quase zen em limpar o mapa, coletar sucata e ver seu carro evoluir visualmente. É o tipo de jogo perfeito para colocar um podcast e relaxar após um dia estressante.
Além disso, o jogo roda liso. Mesmo no PS4 base e no Xbox One, ele era um dos jogos mais bonitos e otimizados da geração. No PC e nos consoles atuais (via retrocompatibilidade com FPS Boost no Xbox), ele é deslumbrante. As explosões, a areia, o ciclo dia/noite… artisticamente, ele envelheceu melhor que muitos jogos de 2020.
Conclusão: Uma Segunda Chance Necessária
Mad Max é a definição de “Hidden Gem” AAA. Um jogo de orçamento alto, feito com paixão, que teve o azar de nascer no dia errado.
Se você gosta de filmes de ação, de carros ou apenas de explodir coisas em um deserto lindo, você deve a si mesmo jogar isso. Ele custa frequentemente menos de R$ 20,00 em promoções. Pelo preço de um lanche, você leva uma das experiências mais atmosféricas da última década.
E lembre-se: quando a tempestade vier, não fuja. Acelere para dentro dela. É lá que estão as melhores recompensas (e as melhores screenshots).
Você jogou Mad Max na época ou deixou passar? O que achou do final polêmico? Deixe sua opinião nos comentários!
