A Magia de Okami: Direção de arte que não envelhece
Vivemos em uma indústria obcecada pelo fotorrealismo. A cada nova geração de consoles, somos bombardeados com termos como “Ray Tracing”, “4K Nativo”, “Texturas em 8K” e “Captura de Movimentos Faciais”. O objetivo parece ser sempre o mesmo: fazer o jogo parecer a vida real.
Mas existe um problema inerente a essa busca: a realidade de hoje é o “datado” de amanhã.
Olhe para os jogos mais bonitos de 2006, ano em que o PlayStation 3 foi lançado. Títulos que tentavam ser realistas, como Resistance: Fall of Man ou Elder Scrolls IV: Oblivion, hoje parecem bonecos de cera estranhos em cenários marrons e sem vida. O “vale da estranheza” é impiedoso.
No entanto, no mesmo ano de 2006, o PlayStation 2 recebeu um jogo que, se fosse lançado hoje, exatamente como era, ainda seria considerado um dos mais belos da geração. Estou falando de Okami.
A obra-prima da extinta Clover Studio (que depois viraria a PlatinumGames) é a prova definitiva de que a direção de arte supera a força bruta tecnológica. Neste artigo, vamos dissecar por que Okami não envelhece e por que ele é muito mais do que um “Zelda de cachorro”.
O Estilo Sumi-e: Pintando o Mundo
A primeira coisa que choca em Okami é que ele não parece um jogo 3D tradicional. Ele parece uma pintura em movimento. O estilo visual é baseado no Sumi-e (ou Suibokuga), uma técnica de pintura oriental que usa tinta nanquim preta (Sumi) sobre papel de arroz branco.
Os contornos dos personagens são grossos e irregulares, como se tivessem sido feitos por um pincel de caligrafia. As cores são vibrantes, mas têm aquela textura de aquarela que sangra no papel. Quando Amaterasu (a loba protagonista) corre, flores brotam sob suas patas, deixando um rastro de vida em um mundo cinza.
Essa escolha estética não foi apenas artística; foi técnica. O PS2 já estava no fim da vida e não tinha poder para renderizar texturas realistas em alta resolução. Ao adotar o Cel Shading extremo, os desenvolvedores esconderam as limitações do hardware. Polígonos quadrados viraram “estilo”. Texturas borradas viraram “efeito de pincel”.
É o mesmo princípio que faz Ni No Kuni ser tão bonito até hoje. Se você gosta desse estilo visual que prioriza a arte sobre os polígonos, recomendo ler nossa análise sobre Ni No Kuni: Ponte entre JRPG e Cinema Ghibli, onde discutimos como o Studio Ghibli ajudou a criar outro clássico atemporal.
A Mecânica do Pincel Celestial
A arte em Okami não é apenas cosmética; ela é a mecânica central de gameplay. Você controla Amaterasu, a deusa do sol encarnada em uma loba branca. Seu poder principal é o Pincel Celestial.
A qualquer momento, você pode segurar um botão (R1) para “congelar” o mundo. A tela vira um pergaminho de papel envelhecido e um pincel gigante aparece. Com o analógico, você desenha formas na tela que se transformam em milagres:
- Desenhe um círculo no céu -> O sol aparece (transformando noite em dia).
- Desenhe uma linha reta sobre um inimigo -> Um corte de espada o fatia ao meio.
- Desenhe um círculo com um traço -> Uma bomba aparece e explode paredes.
- Desenhe um laço saindo de uma flor -> Um cipó te puxa para lugares altos.
Essa mecânica quebra a quarta parede de forma brilhante. Você, o jogador, é o artista. Você está literalmente desenhando a solução dos problemas. É uma interação tátil que poucos jogos conseguiram replicar (talvez apenas Tearaway ou Kirby and the Rainbow Curse).
E o mais impressionante é como o jogo reconhece seus desenhos tortos. Você não precisa ser um Picasso. Um círculo meio oval ainda vira o sol. O jogo quer que você se sinta poderoso, não frustrado com a precisão do controle.
Uma Aula de Mitologia Japonesa (Shintoísmo)
Se God of War ensinou mitologia grega para uma geração, Okami é o professor de folclore japonês. O jogo é uma enciclopédia interativa do Shintoísmo e das lendas nipônicas.
A protagonista, Amaterasu Omikami, é a deusa mais importante do panteão xintoísta, a deusa do sol e do universo. No jogo, ela desce à terra na forma de Shiranui (o lobo branco) para salvar Nippon (Japão) da escuridão.
O vilão principal (inicialmente) é Yamata no Orochi, a serpente de oito cabeças e oito caudas. A batalha contra Orochi é lendária não só pela escala, mas pela fidelidade ao mito: você precisa embebedar as cabeças da serpente com saquê (o “8 Purification Sake”) antes de poder cortá-las.
Além disso, encontramos figuras como:
- Susanoo: O deus das tempestades e irmão de Amaterasu. No jogo, ele é retratado como um guerreiro preguiçoso e fanfarrão que precisa “acordar” para seu destino de herói. A evolução dele é um dos arcos mais bonitos da trama.
- Kaguya: A princesa da lua, baseada no “Conto do Cortador de Bambu” (que também virou filme do Ghibli).
- Issun: O “artista errante” que acompanha Amaterasu (e serve como sua voz, já que a loba não fala). Ele é baseado no “Issun-boshi”, o menino de uma polegada.
Jogar Okami é absorver cultura. Você entende por que os japoneses reverenciam a natureza, as árvores sagradas e os portões Torii.
A Maldição da Comparação com Zelda
Durante anos, Okami foi chamado de “o melhor Zelda que a Nintendo não fez”. E a comparação é justa. A estrutura é idêntica:
- Explore um mundo aberto (Overworld).
- Encontre uma vila com problemas.
- Entre em uma Dungeon (masmorra).
- Resolva puzzles, pegue um item novo (ou técnica de pincel).
- Mate o chefe usando essa técnica.
- Repita.
Mas Okami melhora a fórmula em alguns aspectos. O combate é mais rápido e fluido, lembrando jogos de ação da Platinum (o que faz sentido, dado o pedigree dos criadores). Você tem armas primárias e secundárias (espelhos, rosários e espadas) que mudam completamente o estilo de luta.
Onde ele perde para Zelda é no ritmo. Okami é um jogo longo. Muito longo. Ele tem “falsos finais”. Você acha que zerou ao derrotar Orochi (com umas 15 horas de jogo), mas descobre que aquilo foi só o primeiro ato. O jogo continua por mais 20 ou 30 horas. Para alguns, isso é valor pelo dinheiro. Para outros, é cansativo. O tutorial inicial também é famoso por ser lento e cheio de texto (a voz dos personagens é um balbucio estilo “Banjo-Kazooie” que pode irritar).
O Legado e a Versão HD
Infelizmente, Okami foi um fracasso comercial no lançamento. Ele vendeu pouco, o que contribuiu para o fechamento da Clover Studio. Mas o tempo fez justiça.
A versão Okami HD, disponível hoje para PS4, Xbox One, Switch e PC, é a forma definitiva de jogar. Ela renderiza o jogo em 4K (no PC/consoles fortes), o que deixa as linhas de tinta ainda mais nítidas. No Switch, você pode usar a tela de toque para desenhar, o que torna a experiência do Pincel Celestial ainda mais intuitiva.
Conclusão
Okami é um daqueles jogos que todo mundo deveria jogar antes de morrer. Ele é uma prova de que videogames são arte. Não porque tentam imitar filmes, mas porque usam a interatividade, a música e o visual para criar uma emoção que nenhuma outra mídia consegue.
Quando você corre pelos campos de Shinshu Field, deixando um rastro de flores para trás, ao som daquela trilha sonora de flautas e tambores taiko, você não está apenas jogando. Você está restaurando a beleza de um mundo quebrado. E essa é uma sensação que nenhum gráfico fotorrealista de 2026 vai conseguir superar.
Se você nunca jogou, aproveite que ele está sempre em promoção (muitas vezes por menos de R$ 40,00). É uma aula de design, de cultura e de beleza.
E você? Já teve a experiência de jogar Okami? O que achou da duração do jogo? Acha que ele se estende demais ou queria que nunca acabasse?
