O perigo dos Cartões SD Falsos na Emulação
Você finalmente comprou aquele portátil chinês que tanto queria. Seja um R36S, um Miyoo Mini Plus ou um Anbernic, a sensação é a mesma: a caixa chega, você rasga o plástico com a empolgação de uma criança no Natal, liga o aparelho e vê aquela lista imensa de 15.000 jogos prontos para jogar. É o paraíso, certo?
Errado. Se você está usando o cartão de memória que veio dentro do console (o famoso “Stock Card”), você não está no paraíso. Você está sentado em cima de uma bomba-relógio digital.
Eu sei que parece exagero. Afinal, “está funcionando, né?”. O jogo abre, o save funciona, o sistema carrega. Mas a realidade cruel do mercado de emulação portátil é que o componente mais importante do seu dispositivo é, quase sempre, o mais vagabundo. E a pior parte? Ele vai falhar exatamente quando você estiver mais investido naquele RPG de 60 horas.
Neste guia, vamos ter uma conversa séria sobre o cartão SD falso e os genéricos que acompanham esses consoles, por que eles são um risco real para o seu tempo e dinheiro, e como resolver isso antes que a tragédia aconteça.
O “Crime” do Cartão Genérico (White Label)
Para entender o problema, precisamos entender como esses portáteis conseguem ser tão baratos. Como um R36S custa menos de R$ 300,00 entregando uma tela IPS linda e um processador decente? A resposta está onde você não vê: na economia de custos dos componentes “invisíveis”.
O cartão micro SD que vem no slot do seu console geralmente não tem marca. É um cartão preto, genérico, às vezes com um adesivo mal colado dizendo “64GB” ou “Game Card”. Na indústria, chamamos isso de White Label de baixa qualidade.
Muitas vezes, esses cartões são feitos com chips de memória que foram rejeitados no controle de qualidade de grandes fábricas (como Samsung ou Kioxia). Eles funcionam, mas têm setores defeituosos, velocidades de leitura instáveis e uma vida útil ridícula.
Eu aprendi isso da pior forma possível. Há alguns anos, perdi um save de quase 40 horas de EarthBound num Powkiddy antigo. Um dia o console ligou, no outro, tela preta. O cartão tinha simplesmente “morrido”, levando junto meu progresso e a configuração do sistema. A frustração de perder tempo de vida num cartão SD falso ou de má qualidade é algo que eu não desejo nem para quem joga de Teemo no LoL.
Por que eles falham? A explicação técnica sem “tiques”
“Ah, Arthur, mas eu cuido bem do meu console.”
O problema não é o cuidado, é a física.
Cartões SD funcionam com memória flash NAND. Cada vez que você grava algo no cartão (um save state, uma configuração que mudou, ou até logs do sistema), você gasta um pouco da vida útil daquela célula de memória. Cartões de boa qualidade têm algoritmos inteligentes que distribuem esse desgaste.
O cartão SD falso ou genérico barato não tem essa inteligência. Pior: muitos deles são hackeados para mostrar uma capacidade que não têm.
É um golpe comum: o chip real tem 8GB, mas o firmware do cartão diz para o computador que ele tem 64GB. Você começa a colocar jogos. Quando os arquivos passam dos 8GB reais, o cartão começa a sobrescrever os dados antigos. O resultado? Arquivos corrompidos, jogos que travam no meio e saves que somem.
Além disso, sistemas operacionais baseados em Linux (como o ArkOS ou OnionOS que rodam nesses portáteis) fazem muitas pequenas leituras e escritas o tempo todo. Um cartão ruim não aguenta esse tranco por muito tempo. É como tentar correr uma maratona de chinelo havaiana: vai arrebentar.
Como identificar um Cartão SD Falso (O Teste da Verdade)
Você comprou um cartão de “marca” na internet por um preço muito baixo e está desconfiado? Ou quer testar aquele cartão que veio no console? Existe uma ferramenta que é o padrão-ouro para isso.
O software se chama H2testw. Ele é antigo, tem uma interface que parece ter saído do Windows 98, mas é infalível.
O passo a passo da verificação:
- Faça backup de tudo: O teste vai encher o cartão de dados, então ele precisa estar vazio ou você pode perder arquivos.
- Baixe o H2testw: Você pode encontrar o download seguro em sites de tecnologia confiáveis como o Heise.de (página oficial).
- Rode o teste: Insira o cartão no PC, abra o programa, selecione a unidade e clique em “Write + Verify”.
- Espere (e chore): O processo demora. Ele vai gravar dados em cada megabyte do cartão e depois ler tudo de volta.
Se o cartão for um cartão SD falso, o programa vai dar um erro vermelho dizendo que os dados estão corrompidos ou que a capacidade real é menor que a prometida. Se der verde (“Test finished without errors”), parabéns! Seu cartão é confiável.
Para usuários de Mac ou Linux, existe uma alternativa chamada F3, que faz exatamente a mesma coisa via linha de comando.
Marcas que eu confio (e as que eu fujo)
Depois de testar dezenas de portáteis e configurar sistemas para amigos, eu cheguei numa lista curta de confiança. Não ganho nada dessas marcas para falar isso, é pura experiência de campo.
O “Tier S” (Pode comprar de olhos fechados):
- SanDisk Ultra / Extreme: É o padrão da indústria. O modelo “Ultra” (cinza e vermelho) é o melhor custo-benefício para emulação. É rápido o suficiente para carregar jogos de PS1/PSP e dura anos. Você pode conferir as especificações no site oficial da SanDisk.
- Samsung EVO Select / Plus: Excelentes, muitas vezes mais baratos que os SanDisk e com durabilidade monstruosa.
“Tier B” (Bons, mas cuidado):
- Lexar / Kingston: São boas marcas, mas são as mais falsificadas do mercado. Se comprar, certifique-se que é de uma loja oficial (como a loja oficial da Kingston na Amazon ou Mercado Livre) e sempre rode o H2testw.
O “Tier Z” (Lixo eletrônico):
- Qualquer cartão que venha escrito apenas “MicroSD”, “TF Card” ou marcas impronunciáveis.
- Cartões com estampas de personagens ou logos de jogos (geralmente são genéricos pintados).
- O cartão que veio dentro do seu R36S. Sério, jogue fora. Ou use para guardar arquivos que você não se importa de perder, como memes de grupo de família.
O Backup é seu Pastor
Mesmo com um cartão original da NASA, eletrônicos falham. A regra de ouro da emulação é: quem tem um backup, não tem nenhum. Quem tem dois, tem um.
Se você seguiu nosso guia sobre se vale a pena comprar um portátil chinês, já sabe que trocar o sistema operacional é essencial. Mas o backup dos saves é ainda mais crítico.
A maioria desses sistemas (ArkOS, OnionOS) guarda os saves numa pasta chamada /Saves ou /RetroArch/Saves. Crie o hábito de, uma vez por semana, plugar o cartão no PC e copiar essa pasta para o seu Google Drive ou HD externo.
Existem até scripts avançados que fazem backup automático via Wi-Fi (para aparelhos como o Miyoo Mini Plus ou RG35XX Plus), mas o bom e velho “copiar e colar” manual nunca falha.
Conclusão: O barato que sai caro
Eu entendo a preguiça. Você acabou de gastar dinheiro no console, ele chegou pronto, e a ideia de gastar mais R60,00ouR 80,00 num cartão novo e ter o trabalho de instalar o sistema do zero desanima.
Mas pense no cartão SD falso como um pneu careca num carro novo. Ele vai rodar por um tempo, mas na primeira curva chuvosa (ou no primeiro save state crítico antes do chefe final), ele vai te deixar na mão.
A emulação é um hobby de preservação e nostalgia. Não deixe que uma peça de plástico de má qualidade estrague suas memórias. Compre um cartão decente, faça a instalação limpa e jogue com a paz de espírito de saber que seu progresso em Final Fantasy VII está seguro.
Seu “eu” do futuro vai te agradecer.

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