Easter eggs obscuros que conectam Bayonetta 3 com jogos esquecidos da Platinum

Bayonetta 3 é, por si só, um exagero: combate caótico, história multidimensional, visuais absurdos e um ritmo que não pede licença para nada.

Mas, por baixo desse espetáculo todo, o jogo também funciona como uma espécie de cápsula de memória da própria PlatinumGames.

Quem olha só a superfície vê um hack and slash moderno, mais um capítulo na saga da bruxa.

Quem puxa o freio, explora os cantos do mapa, brinca com armas e invocações e presta atenção em detalhes de interface, nomes e animações encontra outra camada: easter eggs obscuros que conectam Bayonetta 3 com jogos menos lembrados da Platinum.

Não estamos falando apenas das referências óbvias a Bayonetta 1 e 2, ou às inspirações gerais de ação japonesa.

A graça aqui é perceber como o jogo acena para títulos que ficaram meio esquecidos, subestimados ou simplesmente ofuscados por projetos maiores do estúdio.

Neste texto, a ideia é justamente essa: explorar esses easter eggs obscuros, entender como eles funcionam como homenagem interna e mostrar como Bayonetta 3 vira, discretamente, um tour pela história alternativa da Platinum.

Aviso rápido: vou evitar spoilers de história mais pesados, focando em referências de design, nomes, cenários e detalhes visuais. Ainda assim, se você é extremamente sensível a qualquer tipo de spoiler, considere este texto mais como algo para ler depois de terminar o jogo.


PlatinumGames e sua pilha de jogos “esquecidos”

Antes de entrar em Bayonetta 3, vale lembrar que a Platinum não é só Bayonetta, NieR: Automata e Astral Chain. O estúdio tem uma lista cheia de jogos que:

  • passaram batido por muita gente na época;
  • viraram cult, mas nunca venderam tanto;
  • vivem mais em clipes de YouTube e threads de fórum do que na cabeça do público geral.

Entre esses títulos menos falados, entram coisas como:

  • MadWorld – o beat ‘em up estilizado em preto e branco do Wii;
  • The Wonderful 101 – o super‑herói coletivo caótico do Wii U;
  • Anarchy Reigns – multiplayer maluco de pancadaria;
  • Vanquish – o shooter de dash e slide que muita gente só descobriu depois;
  • experimentos e colaborações menores que nunca viraram “franquia”.

Em Bayonetta 3, a equipe aproveita que está mexendo com multiverso, estilos de combate diferentes e um arsenal insano para enfiar referências a essa “segunda linha” da Platinum, quase como se estivesse dizendo:

“A gente lembra desses jogos. E quem presta atenção, também.”


Easter eggs em armas e animações: ecos de Vanquish e Anarchy Reigns

Um dos lugares mais naturais para esconder referências é no arsenal de Bayonetta 3.

Armas, poses, timings de animação e pequenos detalhes nos golpes carregam ecos de outros projetos do estúdio.

Vanquish: o espírito do deslize e da agressão visual

Vanquish é famoso por duas coisas:

  1. O slide de joelhos com foguete, que virou a assinatura do jogo.
  2. A estética de tiro futurista super agressivo, cheia de faíscas, trilhos de bala e efeitos luminosos.

Em Bayonetta 3, em algumas armas com temática mais tecnológica ou “armadura futurista”, dá para perceber:

  • animações de movimento que lembram muito o “rush” de Vanquish, com arranques rápidos e deslizes curtos no chão;
  • trilhas de luz no rastro de projéteis e golpes, que ecoam o visual de tiros e mísseis do shooter;
  • poses finais de golpe que remetem àquele jeito exagerado de “finalizar uma sequência” bem típico do Sam, protagonista de Vanquish.

Não é uma cópia direta, mas uma reutilização de linguagem visual e corporal que qualquer fã do shooter reconhece no instinto, mesmo sem uma confirmação explícita.

Anarchy Reigns: o caos, a brutalidade e o humor físico

Anarchy Reigns é um jogo menos lembrado, mas sua energia é muito Platinum: pancadaria, caos de personagens e exagero cômico na violência.

Em Bayonetta 3, algumas armas corpo a corpo e invocações gigantes:

  • utilizam animações que lembram muito golpes de personagens de Anarchy Reigns, especialmente em agarrões e arremessos;
  • abusam de “jogar o inimigo longe” de um jeito quase caricatural, com trajetória exagerada e impacto barulhento;
  • fazem uso de timing e pausa no golpe que lembram o feeling de impacto daquele multiplayer.

É como se certas armas de Bayonetta 3 fossem uma forma de “ reciclar e refinar” o que Anarchy Reigns fez em um contexto mais bagunçado e menos polido.


Interface, nomes e detalhes de menu: The Wonderful 101 e além

Muita gente passa reto por menus, ícones e nomes de habilidades, mas é exatamente aí que alguns dos easter eggs mais obscuros se escondem.

Nomes que soam familiares demais

The Wonderful 101, por exemplo, é cheio de:

  • trocadilhos;
  • usos específicos de palavras como “Unite”, “Wonderful”, “Team Attack”;
  • títulos dramáticos exagerados para movimentos e habilidades.

Em Bayonetta 3, alguns nomes de habilidades, técnicas ou descrições:

  • usam termos, ritmo de frase e exagero cômico que lembram demais a forma como The Wonderful 101 batizava seus golpes;
  • misturam inglês dramático com humor, num tom que é muito Platinum daquela época;
  • parecem quase piadas internas com quem acompanhou aquele jogo no Wii U.

Isso é um tipo de easter egg menos óbvio: não é um modelo 3D reaproveitado ou uma música reusada, e sim um eco de personalidade de escrita, um jeito específico de nomear as coisas.

Ícones e HUD que soam “familiar”

Além de texto, alguns ícones de interface:

  • usam geometrias, setas, bordas e cores que lembram ferramentas de HUD de jogos anteriores;
  • brincam com miniaturas estilizadas que remetem a heróis “chibi” e design minimalista usado em projetos como The Wonderful 101.

Nada disso é prova de “copy paste”.

É mais uma continuidade de estilo: designers que trabalharam em vários projetos carregando consigo pequenas manias visuais – e que acabam criando pontes discretas entre jogos aparentemente distantes.


Piadas internas e referências visuais a MadWorld

MadWorld, com seu visual em preto e branco cheio de sangue vermelho, é um dos títulos mais esteticamente marcantes (e subestimados) da Platinum.

Bayonetta 3, obviamente, tem outra paleta, mas isso não impede alguns acenos.

Contraste extremo como homenagem discreta

Em algumas invocações e sequências mais estilizadas:

  • o jogo puxa um contraste mais forte de luz e sombra, com áreas quase totalmente negras e recortes de luz muito definidos;
  • alguns enquadramentos lembram posters e cenas icônicas de MadWorld, no jeito de destacar silhuetas e movimentos contra fundos simples.

Não chega a virar uma fase inteira em preto e branco, mas existem momentos em que o jogo parece brincar com essa memória visual, especialmente em ataques mais “performáticos”.

Humor violento com cara de MadWorld

MadWorld também é lembrado pelo humor absurdo: mortes exageradas, serras, esmagamentos, tudo tratado de forma quase cartunesca.

Em Bayonetta 3, algumas finalizações de demônios invocados:

  • exageram a violência de forma tão grotesca que se afastam do “sexy cool” usual da série e se aproximam da brutalidade cômica de MadWorld;
  • usam timings de pausa e zoom similares, dando aquela sensação de “câmera que saboreia o impacto”.

É um tipo de easter egg mais de “sensação” do que de referência direta, mas que funciona como uma ponte emocional entre os dois jogos.


Personagens, multiverso e o espírito de “crossover interno”

Bayonetta 3 trabalha com multiverso, versões alternativas, mundos paralelos e realidades quebradas.

Isso, por si só, já parece uma oportunidade de ouro para a Platinum:

  • testar ideias visuais;
  • brincar com conceitos antigos;
  • encaixar referências a projetos que ficaram na gaveta.

Arquétipos que lembram outras criações da Platinum

Em alguns mundos e personagens secundários, dá para notar:

  • arquétipos de heróis e vilões que lembram figuras de jogos menos famosos da Platinum;
  • combinações de cor, postura e personalidade que ecoam protagonistas ou coadjuvantes de títulos antigos;
  • uma certa “colagem” de estilos, como se o multiverso da Bayonetta também fosse um multiverso da Platinum em escala conceitual.

Novamente, não é o tipo de referência que vem com nome e sobrenome na tela.

É mais uma forma de mantê‑los vivos no imaginário, diluídos em novas criações.


Música, ritmo e pequenos trechos sonoros que soam familiares

Outra camada importante de easter eggs está no som.

A Platinum adora criar músicas com identidade forte: refrões marcantes, guitarras agressivas, batidas eletrônicas que mudam com a ação.

Em Bayonetta 3, além das faixas próprias da série, aparecem:

  • motivos rítmicos (padrões de bateria, viradas) que lembram trilhas de projetos anteriores;
  • trechos de melodia que parecem resposta ou homenagem a músicas menos lembradas da Platinum;
  • mixagem que, em certos momentos, imita a “assinatura sonora” de alguns jogos antigos, principalmente em lutas específicas ou fases com tema mais experimental.

Para quem jogou muita coisa do estúdio, essas pequenas coincidências começam a se somar, criando uma sensação de “já ouvi algo parecido em outro lugar”.


Por que esses easter eggs são tão obscuros?

Diferente de muitos jogos que adoram jogar referências na cara do jogador, Bayonetta 3 trata esse tipo de conexão com mais discrição.

Alguns motivos prováveis:

  • Foco na identidade da franquia
    Bayonetta é uma série forte o suficiente para não depender de crossovers óbvios com o resto da Platinum. As referências existem como pano de fundo, não como marketing.
  • Respeito aos jogos menos conhecidos
    Em vez de transformar títulos “esquecidos” em piada, o jogo prefere homenageá‑los de forma sutil, entendendo que, para muita gente, eles são experiências importantes.
  • Coerência estética
    Juntar explicitamente um personagem de The Wonderful 101 ou de MadWorld no meio da narrativa de Bayonetta 3 poderia quebrar o tom. É mais elegante trabalhar com ecos visuais e mecânicos do que com cameos diretos.

O resultado é um conjunto de easter eggs que não interferem em nada na experiência de quem não conhece o catálogo da Platinum, mas enriquecem o jogo para quem conhece.


O que essas conexões dizem sobre a PlatinumGames

No fim das contas, esses easter eggs obscuros em Bayonetta 3 revelam algumas coisas importantes sobre o estúdio:

  1. Consciência de legado
    A Platinum parece ter plena ciência de que sua história não se resume aos grandes hits. Ao reaproveitar estilos, animações, piadas internas e linguagens visuais, o estúdio se trata como uma linha contínua, e não como projetos soltos no vazio.
  2. Aproveitamento de experiência acumulada
    Em vez de simplesmente jogar fora ideias de jogos que venderam pouco, a Platinum recicla conceitos e polimentos. Bayonetta 3 se beneficia de tudo o que a equipe aprendeu experimentando em Vanquish, MadWorld, Anarchy Reigns, The Wonderful 101 e outros.
  3. Diálogo com o fã mais atento
    Esses detalhes funcionam como uma conversa secreta com quem acompanha o estúdio desde o começo. Não trazem vantagem mecânica, não desbloqueiam nada, mas passam um recado claro: “A gente sabe que você estava lá. E a gente também estava.”

Conclusão: Bayonetta 3 como espelho distorcido da Platinum

Os easter eggs obscuros que conectam Bayonetta 3 com jogos esquecidos da Platinum não são apenas curiosidades de wiki. Eles transformam o jogo em algo maior:

  • uma celebração discreta da trajetória do estúdio;
  • um museu vivo de ideias reaproveitadas, refinadas e escondidas em plena vista;
  • um lembrete de que, por trás de cada projeto “novo”, existe uma pilha de experimentos anteriores.

Para quem só quer combos espetaculares, Bayonetta 3 já entrega mais do que o suficiente.

Mas, para quem presta atenção em detalhes, nomes, animações, enquadramentos e piadas visuais, o jogo vira também uma viagem pelo passado da Platinum – um passado que, mesmo esquecido por muita gente, continua vivo, disfarçado, no meio do caos elegante da bruxa mais estilosa dos videogames.

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