Jogos para jogar com amigos em modo local: ressuscitando o sofá gamer
Nos últimos anos, a maior parte das conversas sobre multiplayer migrou para o online:
- servidores lotados,
- crossplay,
- chat de voz,
- matchmaking automático.
E, no meio disso, o velho ritual de jogar junto no sofá foi sendo empurrado para um canto da memória. Ainda existe, claro, mas com menos destaque de marketing, menos espaço nas vitrines digitais, menos “hype”.
Mesmo assim, para muita gente, as lembranças mais fortes envolvendo videogame e amizade não têm nada a ver com lobby online. Têm a ver com:
- dividir tela em dois,
- empurrar o amigo no sofá quando ele te derruba de um penhasco,
- gritar na sala inteira quando todo mundo quase perde ao mesmo tempo.
Este texto é um convite para revisitar essa ideia: jogos para jogar com amigos em modo local, cara a cara, dividindo sofá, tela, controle ou mesmo um único portátil. E, ao mesmo tempo, é uma forma de pensar em como organizar seu setup de sala — seja com console, seja com notebook gamer, seja com Steam Machine — para que o “jogar junto” não vire só uma nota de rodapé na sua rotina.
Por que o modo local ainda importa em 2025
A primeira pergunta que muita gente faz é:
“Se dá para jogar com qualquer pessoa do mundo online, por que insistir em local?”
Alguns motivos bem simples:
- Presença física importa
- Rir junto é diferente de mandar emoji;
- Dividir nervoso na mesma sala cria memórias mais fortes.
- Baixa barreira de entrada
- Um amigo que não joga tanto consegue entrar numa sessão local sem precisar criar conta, configurar headset, aprender chat de voz, etc.
- Controle de ambiente
- Nada de toxicidade de desconhecidos;
- Você escolhe o clima da sessão (competitivo, zoeira, cooperativo de verdade).
- Combina com setup de sala
- TV grande, sofá confortável,
- Talvez um console mais antigo como o Xbox One em 2025 ainda segurando multiplayer local,
- Ou um PC compacto plugado na TV.
Mesmo num mundo de online estável, o local tem um tipo de energia difícil de substituir: ele é mais festa do que “sessão de treino”.
Escolhendo o tipo certo de jogo para o grupo certo
Nem todo jogo local funciona para qualquer grupo. Antes de sair comprando tudo que tem “co‑op” na descrição, vale pensar no perfil da galera.
Algumas categorias úteis:
- Party games e caos controlado
- Jogos rápidos, com regras simples;
- Ideais para grupos grandes ou misturados (gente que joga muito + gente que quase não joga).
- Cooperativos de campanha
- Parecidos com jogar uma série juntos;
- Envolvem mais dedicação, progresso, história.
- Competitivos pontuais
- Corrida, luta, esportes;
- Boas opções para sessões curtas ou torneios improvisados.
- Experiências narrativas compartilhadas
- Um jogador com o controle, vários palpites na sala;
- Muito bons para jogos mais introspectivos ou difíceis, como Celeste (que comentei no texto sobre como ele equilibra dificuldade e acolhimento).
Pensar primeiro no tipo de encontro (noite de caos, maratona de campanha, visita rápida) ajuda a decidir o que instalar no console ou no PC antes dos amigos chegarem.
Party games: a porta de entrada perfeita para qualquer visita
Se a ideia é reunir pessoas com níveis muito diferentes de experiência, party games ainda são rei. O ideal aqui são jogos que:
- Têm regras explicadas em 1 minuto;
- Permitem perder sem frustração enorme;
- Estimulam conversa e risada, não silêncio concentrado.
Alguns formatos que costumam funcionar bem:
- Minigames de coleção
- Vários desafios curtos, cada um com controle simplificado;
- A graça está na variedade e no caos.
- Jogos de tabuleiro digitalizados
- Versões eletrônicas de ideias de tabuleiro funcionam bem em grupos,
- Principalmente se o jogo sinaliza bem o que está acontecendo na tela.
- Jogos musicais e de ritmo
- Perfeitos para quebrar o gelo;
- Mesmo quem não joga consegue se divertir errando.
Mesmo que você esteja rodando tudo em um notebook ou PC plugado na TV, vale lembrar daquelas “configurações esquecidas” que comentei quando falei de reviver jogos antigos no PC com ajustes finos de vídeo:
ajustar tamanho de HUD e texto é essencial para que todo mundo na sala consiga entender o que está rolando, especialmente em party game visualmente poluído.
Cooperativos de campanha: virar série com episódios jogados no sofá
Outra forma de jogar com amigos em modo local é encarar jogos cooperativos de campanha como se fossem:
- uma série com episódios,
- ou um RPG de mesa leve.
Aqui, vale procurar títulos que:
- Tenham progressão clara (fases, capítulos, missões);
- Guardem o save de forma estável para retomar depois;
- Não dependam de grind insano entre sessões.
Esse tipo de jogo funciona muito bem para:
- Duplas fixas (duas pessoas que se encontram de tempos em tempos);
- Casas em que há um console na sala e mais alguém morando junto,
- Grupos que gostam de combinar uma noite específica da semana para “continuar a campanha”.
É quase como ter um pequeno “clube do jogo” doméstico.
Competitivo saudável: perder olhando no olho
Competição local é um terreno perigoso, mas muito divertido se bem administrado.
A chave está em:
- Escolher jogos em que a derrota seja clara, mas não humilhante;
- Evitar títulos em que uma pessoa experiente destrói as outras sem chance;
- Criar pequenas regras da casa (rodízio de quem joga, handicap leve, times mistos).
Alguns formatos que costumam funcionar:
- Corridas
- Fácil de entender: chegar em primeiro, não bater tanto, lidar com itens;
- Ideal para partidas rápidas.
- Luta com comandos acessíveis
- Jogos que permitam jogar “no feeling” sem decorar meia lua complexa;
- Se tiver modo com golpes simplificados ou auto-combo, melhor ainda.
- Esportes arcade
- Futebol, basquete, etc., em versões mais simples;
- Podem ser boas alternativas para grupos que já assistem esportes juntos.
A graça está em:
- Gritar gol/KO olhando na cara do amigo,
- Rir do replay,
- Fazer revanche imediata.
É o tipo de energia que não passa pelo headset.
Como montar um setup de sala amigável para modo local
Não adianta escolher jogos ótimos para jogar junto se o setup atrapalha. Algumas coisas que ajudam muito:
- Tela com tamanho e posição confortáveis
- TV grande o suficiente para que split-screen não vire microscópio;
- Altura que não force pescoço.
- Controles suficientes e funcionais
- Pelo menos dois controles em bom estado;
- Se possível, quatro, caso receba grupos maiores.
- Cadeiras e sofá bem posicionados
- Todo mundo com linha de visão limpa para a TV;
- Nada de gente jogando torta no canto, sem ver interface direito.
- Configurações ajustadas para sala
- HUD e textos em tamanho legível;
- Brilho e contraste calibrados (sem cenas super escuras inviáveis coletivamente);
- Latência reduzida (modo jogo da TV, se possível).
Esse cuidado com setup é o mesmo tipo de atenção que vale ter quando se discute se faz mais sentido um notebook gamer de entrada ou uma Steam Machine dedicada para jogar na sala:
a experiência não depende só do hardware, mas de como tudo está organizado fisicamente.
Jogos locais para família: nem todo mundo quer competir
Quando a proposta é jogar em família — pais, mães, filhos, sobrinhos, avós —, o recorte de jogo muda um pouco.
Vale priorizar:
- Temas mais leves;
- Dificuldade ajustável;
- Possibilidade de cooperar em vez de destruir o outro.
Aqui entram muito bem:
- Jogos de plataforma cooperativa,
- Jogos de culinária/gestão caótica (cada um cuida de uma tarefa),
- Experiências mais narrativas, em que uma pessoa joga e as outras opinam (escolhas de diálogo, caminhos, etc.).
É interessante como, nesse contexto, até jogos single player podem funcionar como “modo local família”, desde que:
- Todo mundo participe da decisão,
- Haja espaço para pausa, conversa, comentário.
Clássicos de aventura como Zelda Ocarina of Time ou Zelda Link’s Awakening podem funcionar como “história em capítulos” jogada coletivamente, da mesma forma que um JRPG como Xenogears vira experiência de observação e debate quando várias pessoas assistem a trama desenrolando e opinam sobre as escolhas.
Não subestimar jogos “antigos” para jogar junto
Um ponto importante é lembrar que:
- Muitos jogos antigos ainda são excelentes para multiplayer local,
- Especialmente em consoles como PS3, PS4, Xbox 360, Xbox One e até PC.
Às vezes, vale mais:
- Desencavar aquele jogo de corrida, luta ou esporte que você já tem,
- Do que comprar algo novo só porque está em destaque na loja digital.
Com um pouco de cuidado de configuração — aqueles ajustes de gamma, FOV, filtragem e HUD que comentei no texto sobre configurações esquecidas que transformam jogos antigos no PC —, dá para:
- Deixar jogos antigos lindos em TV moderna,
- E ganhar uma noite de sofá gamer com custo zero.
Conclusão: o sofá ainda é um ótimo “servidor”
Jogos online não vão parar de crescer, e está tudo bem. Mas o sofá, a mesa de centro, o controle passando de mão em mão ainda têm um papel que o multiplayer online não consegue copiar por completo.
Jogar com amigos em modo local é:
- Menos sobre performance,
- Mais sobre vínculo,
- Uma forma de usar o videogame como pretexto para estar junto.
Seja com um console atual, um PS4 ou Xbox One “envelhecendo bem” na sala, um PC compacto ou até um notebook posicionado direitinho, vale reservar um espaço na sua rotina para esse tipo de experiência.
Porque, quando alguém perguntar “qual foi a melhor partida da sua vida?”, é bem provável que a resposta envolva:
- Uma sala pequena,
- Gente que você gosta,
- E uma TV gritando “Player 2 wins” na cara de alguém que prometeu que nunca perderia.
