Pokémon Legends: Arceus – quando capturar criaturas vira trabalho de campo em um mundo que ainda assusta

Pokémon sempre foi, por muitos anos, sobre:

  • chegar em uma cidade,
  • curar o time,
  • atravessar rota,
  • batalhar por insígnias.

Pokémon Legends: Arceus pega essa estrutura e chacoalha tudo, perguntando:

“E se, em vez de crescer em um mundo acostumado com Pokémon, você fosse uma das primeiras pessoas a tentar entender essas criaturas de perto?”

Em vez de:

  • ginásios formais,
  • treinadores espalhados,
  • cidades confortáveis,

você encontra:

  • um mundo mais áspero,
  • gente que ainda tem medo de Pokémon,
  • um trabalho que parece muito mais pesquisa de campo do que aventura já organizada.

É um jogo que mistura:

  • exploração ampla,
  • catalogação,
  • e um pouco de “vida selvagem não domesticada”,

criando um Pokémon que, pela primeira vez em muito tempo, se sente estranho e novo de verdade.


Hisui: a sensação de chegar antes da “Poké-sociedade”

A região de Hisui é, em essência, o passado de uma área que os fãs já conhecem em outra forma.
Mas, aqui, o clima é:

  • pioneiro,
  • com vilas ainda sendo estruturadas,
  • com medo real das criaturas.

Isso muda a chave em relação aos jogos tradicionais:

  • Você não é só alguém seguindo um caminho que todo mundo já percorreu.
  • Você é uma peça ativa de um esforço de entender e mapear esse mundo.

Enquanto em Pokémon clássico as cidades parecem projetadas para receber treinadores (Centros Pokémon em cada esquina, Lojas prontas, ginásios montados),
em Legends: Arceus:

  • a vila base parece mais uma fronteira,
  • lugar de gente desconfiada,
  • de adultos que não têm tantas respostas assim.

É uma diferença parecida, em outro gênero, com o que você sente ao comparar:

  • a Hyrule organizada de um Ocarina of Time,
    com
  • a Termina ainda em colapso de Majora’s Mask,
    ou a natureza crua que você explora em textos como o de Metroid Prime: uma paisagem menos “domada”, mais “ainda não entendida”.

Pokédex como ciência, não só checklist

Em muitos jogos da série, completar a Pokédex vira:

  • meta opcional,
  • um objetivo mais de colecionador hardcore.

Em Legends: Arceus, ela assume um papel de:

  • trabalho real,
  • com tarefas específicas por espécie.

Não basta “capturar uma vez”:

  • você precisa observar comportamentos,
  • ver golpes sendo usados,
  • registrar variantes,
  • experimentar formas diferentes de abordar o encontro.

Isso transforma a Pokédex em algo mais próximo de:

  • diário de campo,
  • anotações de pesquisador.

Ela deixa de ser apenas “álbum de figurinhas” e passa a ser:

registro vivo de aprendizado em um mundo que ainda não tem respostas prontas.

Essa mudança é interessante porque:

  • devolve ao ato de “capturar” um peso que, em muitos jogos, virou só hábito;
  • aproxima um pouco a fantasia de ser treinador da ideia de ser cientista de campo;
  • faz o jogador olhar para cada Pokémon menos como “mais um número” e mais como um conjunto de comportamentos a entender.

Um mundo que reage, assusta e foge

A forma como o jogo lida com os encontros no campo também muda:

  • Pokémon podem te atacar diretamente,
  • você mesmo, jogador, precisa desviar,
  • sua presença é vulnerável, não só a dos bichos.

Isso tira o conforto daquela lógica antiga:

  • “se eu encontrar um Pokémon forte demais, é só deixar meu time cair e correr para o Centro”.

Aqui:

  • você corre o risco de ser derrubado na exploração,
  • precisa pensar em aproximação furtiva,
  • medir se vale a pena se meter naquela área agora.

Essa sensação de vulnerabilidade cria um clima que se aproxima, em outro registro, de jogos que exploram mundos menos domesticados:

  • o planeta estranho e silencioso de Metroid Prime,
  • as florestas cheias de perigos de jogos como Ori,
  • até a estranheza de terras antigas em títulos de ação-aventura.

Em Legends: Arceus, porém, isso está filtrado pelo foco em observação, não só combate.


Exploração em zonas amplas: nem mundo totalmente aberto, nem rota fechada

Hisui é dividida em grandes áreas, que funcionam quase como:

  • “biomas de pesquisa”,
  • cada um com sua fauna, clima, relevo.

Não é um mundo totalmente aberto no estilo de alguns jogos de exploração moderna,
mas também não é a sequência linear de rotas tradicionais.

Esse formato cria:

  • um sentimento de “saída de expedição”,
  • voltar para base para organizar dados,
  • planejar o próximo destino.

Em vez de:

  • linha reta,
  • “cidade 1 → rota → cidade 2 → rota…”,

você tem algo mais parecido com:

“Hoje vou passar um tempo nessa região, testar abordagens, completar objetivos da Pokédex dessa área, ver o que descubro.”

É um ritmo que conversa, em termos de sensação de rotina, com experiências que você já comentou como Nintendogs ou até jogos de fazenda em celular:

  • sair, fazer tarefas, voltar, registrar.

Mas aqui, a fantasia é outra:
não é cuidar de pet ou fazenda, é mapear vida selvagem.


Um passado que parece mais perigoso que o presente

Uma graça do jogo é:

  • mostrar um tempo em que Pokémon não eram “bichinhos da escola”,
  • e sim criaturas que geravam medo real na população.

Adultos que:

  • evitam sair dos limites da vila,
  • falam com cautela,
  • encaram o protagonista como alguém quase imprudente.

Essa perspectiva é diferente do tom leve e quase infantil de muitas aventuras da série.
Ela adiciona uma camada de:

  • respeito,
  • estranhamento,
  • e, em alguns momentos, até um quê de superstição.

É como se o jogo perguntasse:

“Antes das ligas, insígnias e rotas turísticas, como seria conviver com seres tão fortes e pouco compreendidos?”

Isso traz um tipo de amadurecimento temático que dialoga bem com:

  • a forma como EarthBound conta a infância em um mundo que esconde coisas bizarras,
  • a maneira como Majora’s Mask lida com o medo coletivo do fim.

Aqui, é o medo do desconhecido –
que você ajuda a transformar em conhecimento estruturado.


Ritmo de jogo: repetição com propósito

Uma crítica comum a Legends: Arceus é:

  • a repetição de tarefas;
  • voltar para as mesmas áreas;
  • preencher objetivos da Pokédex espécie por espécie.

Mas essa repetição também é o que dá ao jogo:

  • sabor de “ofício”,
  • sensação de que existe um trabalho sendo feito,
  • não só uma sequência de momentos heroicos.

É uma lógica que lembra, em outra escala:

  • o ciclo de morrer e voltar em Hades,
  • a insistência de tentar outra run em Disc Room,
  • o processo de aprender um movimento novo em Celeste.

Aqui, no entanto, o loop não é sobre habilidade mecânica ou reflexo,
mas sobre paciência, curiosidade e método.

Você sente que:

  • no começo, está tateando;
  • depois, começa a entender padrões de comportamento;
  • por fim, lê o mapa quase como um naturalista experiente lendo um habitat.

Um Pokémon que arrisca quebrar a zona de conforto

Dentro da coleção de textos que você vem fazendo no Master Carrer, Legends: Arceus ocupa um lugar interessante:

  • não é o mais polido visualmente,
  • não é o mais tradicional,
  • não é o mais “seguro”.

Mas é um dos que mais:

  • mexe na fórmula,
  • questiona a posição do jogador,
  • propõe uma visão de Pokémon em que trabalho de campo e pesquisa têm tanto peso quanto combate competitivo.

É uma tentativa de:

  • trazer sensação de “descoberta” de volta para uma série que, em muitos momentos, passou anos confortável demais.

E, para quem cresceu com os jogos clássicos,
há algo de muito particular em:

  • revisitar esse universo em um tempo em que ele ainda não está pronto,
  • entender que o presente colorido e amigável da série foi construído em cima de um passado tenso,
  • participar ativamente dessa transição.

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