Comparação entre o estilo artístico do Ghibli e o visual “Ghibli-like” do Ni no Kuni 2

Quando falamos em Ni no Kuni, a imagem que vem à mente é clara: cores quentes, personagens fofos, cenários que parecem pintura e aquela sensação de estar dentro de um filme do Studio Ghibli.

No primeiro jogo, isso não é coincidência.

O próprio estúdio participou diretamente da produção, assinando animações e ajudando a definir o clima visual.

Já em Ni no Kuni 2: Revenant Kingdom, a situação muda. O jogo mantém uma imagem “Ghibli-like”, mas sem o envolvimento direto do estúdio.

O resultado é curioso: ao mesmo tempo em que o visual ainda lembra Ghibli, ele também revela onde a equipe da Level‑5 acerta por conta própria e onde a ausência do estúdio fica mais evidente.

Neste texto, vamos comparar o estilo artístico do Ghibli com o visual “Ghibli-like” de Ni no Kuni 2.

A ideia é entender o que aproxima as duas coisas, o que afasta e como essa diferença impacta a experiência de jogar.


O que define o estilo Ghibli (de forma simples)

Antes de olhar para Ni no Kuni 2, vale resumir alguns pilares do visual Ghibli:

  • Personagens simples, mas muito expressivos
    Traços limpos, olhos marcantes, gestos exagerados na medida certa. Não é realismo, é clareza de emoção.
  • Cenários que parecem pinturas
    Fundos cheios de detalhe, mas organizados. Muito uso de luz suave, degradês e cores que conversam entre si.
  • Cores “quentes” e orgânicas
    Mesmo quando o céu é azul forte, há um certo tom suave. Nada parece super saturado ao ponto de doer a vista.
  • Animação com peso e tempo
    Personagens respiram, olham, param. Pequenos movimentos que dão vida e fazem o mundo parecer habitado.
  • Mistura de cotidiano e fantástico
    Coisas mágicas convivem com cenas simples: cozinhar, arrumar a casa, caminhar pela cidade. Isso aterrissa a fantasia.

O Ni no Kuni original, especialmente no PS3, absorve bem esse conjunto.

A grande pergunta é: o quanto disso se mantém em Ni no Kuni 2?


O que Ni no Kuni 2 herda do visual Ghibli

Mesmo sem o Ghibli diretamente, Ni no Kuni 2 tenta manter a ligação estética com o primeiro jogo. E consegue em vários pontos.

1. Personagens reconhecíveis como “Ghibli-like”

  • Olhos grandes, traços suaves, silhuetas simples.
  • Design que evita excesso de detalhes realistas na pele ou no rosto.
  • Cabelos e roupas com formas claras e fáceis de ler, mesmo de longe.

Isso faz com que, à primeira vista, muita gente olhe para uma screenshot de Ni no Kuni 2 e pense “isso parece Ghibli”.

2. Paleta de cores amigável

  • Cenários coloridos, com muito verde, azul e dourado.
  • Mundos que passam sensação de aventura e aconchego, não de desespero total.
  • O uso de luz é menos suave que em filmes do estúdio, mas ainda assim procura um ar acolhedor.

3. Mistura de fantasia e cotidiano

  • Reinos com vida “normal”: cidades, mercadores, NPCs com rotina.
  • Lugares que parecem poder existir fora do conflito principal.
  • Um certo clima de conto de fadas político, que conversa bem com a tradição do primeiro jogo.

Em resumo, Ni no Kuni 2 faz um bom trabalho de manter a superfície Ghibli-like: é claramente um parente visual, não um desconhecido.


Onde Ni no Kuni 2 se afasta do Ghibli

Quando olhamos mais de perto, surgem diferenças que explicam por que muita gente sente que Ni no Kuni 2 é “menos Ghibli” que o primeiro.

1. Cenários mais limpos, menos “pintura”

Nos filmes do Ghibli e no primeiro Ni no Kuni:

  • os fundos têm textura de pincel, sensação de aquarela ou óleo;
  • há pequenos detalhes em quase todo canto, mesmo em cenas simples;
  • a composição de cada quadro é pensada como ilustração.

Em Ni no Kuni 2:

  • o visual puxa mais para o 3D limpo e digital, com superfícies lisas;
  • muitos cenários parecem mais “gamey”, com menos camadas de detalhe;
  • o tratamento de luz é mais direto, menos atmosférico.

Isso não significa que o jogo seja feio.

Mas a diferença é clara: Ni no Kuni 2 parece mais um JRPG moderno bonito do que um quadro animado do Ghibli.

2. Menos foco em microgestos e “vida cotidiana”

O Ghibli é obcecado pelo pequeno gesto: mexer no cabelo, ajeitar a roupa, cozinhar lentamente, olhar pela janela.

O primeiro Ni no Kuni, mesmo com limitações, tenta imitar isso nas cutscenes animadas.

Em Ni no Kuni 2:

  • as cenas são mais objetivas, com menos tempo “gasto” em detalhes do dia a dia;
  • há mais foco em plot, política, aventura direta;
  • a direção de cena parece mais “padrão JRPG” e menos “animação contemplativa”.

Isso tira um pouco daquela sensação de “estar dentro de um filme do Ghibli”, mesmo que o visual básico ainda lembre o estúdio.

3. Design mais genérico em alguns pontos

Ni no Kuni 2 tem ótimos designs, mas:

  • alguns monstros, NPCs e elementos de cenário passam uma impressão mais genérica;
  • o jogo tenta equilibrar muitas ideias (reinos, exército, construção de nação, batalhas táticas), e isso dilui o foco visual;
  • comparado ao primeiro, falta um pouco daquela identidade imediata que você reconhece em um frame.

É como se o jogo ficasse em um meio‑termo: bonito, mas nem sempre tão marcante quanto um filme do Ghibli ou quanto o primeiro Ni no Kuni em seus melhores momentos.


O “Ghibli-like” como escolha e limite

Ni no Kuni 2 não tenta ser uma cópia 1:1 do Ghibli.

Ele busca uma sensação familiar, mas também segue suas próprias prioridades:

  • precisa funcionar como RPG totalmente 3D, com muito combate e exploração;
  • precisa rodar bem, ter clareza de leitura em câmera distante;
  • precisa dar conta de sistemas como gestão de reino e batalhas de exército.

Isso empurra a arte para um caminho mais funcional:

  • menos textura pintada, mais clareza de formas;
  • menos detalhe em cena, mais legibilidade em movimento;
  • menos “quadro perfeito”, mais “campo de batalha legível”.

O “Ghibli-like” aqui é um rótulo honesto: não é o Ghibli puro, é uma interpretação, filtrada pelas necessidades de um JRPG mais amplo e mais mecânico que o original.


O que se perde e o que se ganha sem o Ghibli

O que se perde

  • A sensação de filme interativo do primeiro jogo.
  • A riqueza de pequenos detalhes de animação e cenário.
  • Um certo charme autoral que vem da mão do estúdio.

O que se ganha

  • Mais liberdade visual para a equipe da Level‑5 experimentar;
  • Um estilo que se aproxima de outros JRPGs modernos, facilitando a aceitação de quem vem de fora;
  • Um visual mais leve para o hardware, com foco em fluidez e clareza.

Na prática, Ni no Kuni 2 mostra que o mundo da série aguenta viver sem o Ghibli, mas não sem carregar a comparação nas costas.


Conclusão: família, não cópia

A comparação entre o estilo artístico do Ghibli e o visual “Ghibli-like” de Ni no Kuni 2 deixa uma impressão clara:

  • Ni no Kuni (PS3) é o “filho direto” do Ghibli, com o estúdio ajudando a definir cara, gesto e atmosfera.
  • Ni no Kuni 2 é o “parente próximo”: parece da família, fala a mesma língua visual básica, mas já anda com as próprias pernas.

Se você chega em Ni no Kuni 2 esperando estar dentro de um filme do Ghibli o tempo todo, a diferença pode incomodar.

Mas, se você olha para ele como um JRPG que herdou o espírito geral do estúdio e adaptou para suas necessidades, o visual “Ghibli-like” faz sentido.

No fim, a série Ni no Kuni mostra algo importante: o estilo Ghibli não é só traço.

É ritmo, cenário, gesto e clima.

O primeiro jogo chegou mais perto porque tinha o estúdio ao lado.

O segundo acerta e erra tentando recriar essa magia sem a fonte original, e é justamente nessa tentativa que ele se torna interessante de comparar.

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