Especial de Natal – videogames como ritual de véspera, entre luzes piscando e saves suspensos

Tem gente que lembra da véspera de Natal pelo cheiro de comida na cozinha.
Tem gente que lembra pelo barulho de família falando alto na sala.

E tem uma galera que lembra também de outra coisa:

a TV ligada num canto, o console ligado “só mais um pouquinho”,
o controle na mão enquanto o relógio anda devagar até a ceia.

Este texto é pra você que já marcou Natal com:

  • boss derrotado minutos antes da meia-noite,
  • save feito correndo porque chamaram para tirar foto,
  • ou aquela partida de sofá que virou tradição de família sem ninguém ter planejado.

Quando o “só mais uma fase” vira trilha sonora da ceia

Véspera de Natal tem um tipo de tempo estranho:

  • você está esperando algo acontecer,
  • mas, por um bom pedaço do dia, não acontece nada ainda.

Criança sem paciência, adolescente sem muito o que fazer, adulto com o tempo quebrado entre obrigações.

Videogame entra exatamente aí, nesse espaço de espera:

  • um jeito de preencher o intervalo,
  • deixar a ansiedade mais leve,
  • e, muitas vezes, criar uma lembrança que mistura jogo e ocasião.

Talvez você tenha passado uma véspera:

  • tentando terminar uma dungeon em algum Zelda,
  • fazendo mais um ciclo em Zelda: Majora’s Mask,
  • ou pescando em algum JRPG como Breath of Fire III, enquanto lá fora a cidade diminuía o ritmo.

Não é que o jogo “seja de Natal”.
É que ele vira a forma como sua cabeça sobrevive à espera.


Sofá, controles e gente que normalmente não joga

Tem uma magia específica no Natal:
de repente, gente que nunca encosta em videogame o ano inteiro aceita sentar no sofá pra uma partida.

  • tios e tias apertando botões sem saber o que fazem,
  • pais rindo porque não entendem as regras,
  • irmãos que brigam o ano todo, mas, naquela noite, se juntam pra tentar vencer o mesmo chefe.

Jogos de sofá ganham outra cara nessas horas.

Aquele elenco de títulos que você já explorou em textos como o de multiplayer local para família parece feito para essa noite:

  • partidas rápidas,
  • regras simples,
  • espaço para quem não tem hábito com controle.

No fundo, o que está acontecendo ali não é só “competição”:

é uma desculpa social organizada em pixels
pra aproximar gente que, em outras datas, ficaria cada uma no seu canto.


Jogos que viram presente antes de serem jogo

Tem também o momento clássico:

  • alguém da família chega com uma caixa escondida,
  • o papel de presente entrega o formato de cartucho/caixinha,
  • e você já sabe que aquilo ali vai definir o resto da noite.

Antes mesmo de ligar o console, aquele jogo é:

  • promessa,
  • sonho projetado,
  • fantasia de como vai ser jogar aquilo nas férias.

Se foi um JRPG de fim de ano, tipo Breath of Fire IV ou Xenogears,
a sensação era quase de ganhar um livro enorme, cheio de capítulos esperando.

Se foi algo mais leve, de sofá, ele já vinha com outro tipo de promessa:

  • risada,
  • caos,
  • gente jogando mal e mesmo assim se divertindo.

E, muitas vezes, você nem jogava tanto naquela noite —
só de ligar, ver a tela de título, testar a primeira fase, já parecia suficiente.

O resto ficava guardado para depois.


Entre a árvore e o monitor: dois tipos de luz piscando

A imagem é fácil de montar na cabeça:

  • luzes da árvore piscando num canto,
  • reflexo colorido do jogo na TV,
  • às vezes até o barulho da cozinha vazando por cima da música do console.

É quase um choque de gerações de rituais:

  • o Natal “analógico”, cheio de objetos físicos, enfeites, receitas,
  • e o Natal “digital”, com saves, telas de loading e menus.

Só que, na prática, eles não competem.
Eles se misturam.

Você pode:

  • pausar para dar abraço,
  • pausar para tirar foto,
  • pausar porque chamaram para cortar o peru,
  • voltar e retomar do mesmo ponto.

Talvez por isso jogos com loop claro, como Hades,
ou mesmo sessões rápidas de plataformas, corridas e jogos de luta,
se encaixem tão bem nessa noite:

é um tempo que já é naturalmente fragmentado,
então jogos que aceitam ser picotados funcionam muito bem.


Véspera como checkpoint do ano

Uma coisa curiosa de revisitar memórias de Natal com games é perceber que:

  • muitos dos jogos que você associou a essa data também marcaram fases da sua vida.

Aquele console que você ganhou ainda criança,
aquele RPG que te acompanhou na passagem pra adolescência,
aquele multiplayer que você passou a dividir com primos e irmãos.

Em algum nível, a véspera de Natal funciona como:

  • checkpoint emocional:
    • onde eu estava ano passado?
    • com quem eu estava jogando?
    • o que mudou desde então?

Quando você escreve ou lê textos como o de The Sims, celulares e videogames,
percebe como os jogos viram espelho de períodos da vida.

No Natal, esse espelho ganha moldura de pisca-pisca.


Nem todo Natal é barulhento – e tudo bem o jogo fazer companhia

Também tem o outro lado:
Natal em que a casa está mais vazia,
ou em que você não está com vontade de estar no centro da confusão.

Nessas horas, o videogame deixa de ser:

  • só festa,
    e vira também:
  • companhia calma,
  • ruído de fundo,
  • lugar seguro.

Uma run longa em algum jogo single player,
um mundo silencioso como o de Zelda: Link’s Awakening,
um JRPG com acampamento e fogueira como Breath of Fire III:

todos eles podem ser jeito de atravessar uma noite que, às vezes, pesa mais do que anima.

Não é fuga vazia;
é uma forma de estar em algum lugar,
mesmo que esse “lugar” seja um save antigo.


Natal, games e a sensação de “voltar pra casa” mesmo sem sair do sofá

No fim, falar de videogames na véspera de Natal é falar de:

  • rituais pessoais dentro de um ritual maior,
  • jeitos de passar o tempo que viram memória com cheiro, cor e som.

Às vezes é:

  • o mesmo jogo que você revisita todo ano,
  • o mesmo controle herdado,
  • o mesmo console antigo ligado às pressas.

Às vezes é:

  • um jogo novo que, sem você planejar,
    acaba carimbado na sua cabeça como “aquele que eu comecei na noite do dia 24”.

Entre uma ida à cozinha, uma mensagem no celular e uma risada na sala,
os games acabam ocupando um pedaço muito específico da noite:

o intervalo entre o que já foi e o que ainda vai acontecer –
aquele momento em que o ano parece suspenso por algumas horas.

E é aí que eles brilham:
não como atração principal, mas como tecido invisível costurando lembranças.

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