A Fadiga dos Assinantes: Game Pass e PS Plus Extra estão nos fazendo jogar menos?
Sexta-feira, 21h. Você chega em casa depois de uma semana exaustiva, joga a mochila no canto, liga o console e pensa: “Finalmente vou jogar aquele jogo que todo mundo tá falando.”
Abre o Game Pass (ou o PS Plus Extra, tanto faz). A tela carrega. Você vê 437 jogos disponíveis. Rola a lista. Para. Volta. Abre a aba “Recém-adicionados”. Lê três sinopses. Assiste a um trailer. Adiciona dois jogos à biblioteca “para jogar depois”. Olha o relógio: 22h30.
Você não jogou nada. De novo.
Bem-vindo ao inferno do paradoxo da escolha, onde ter tudo disponível virou sinônimo de não jogar nada. E o pior: a gente paga por isso todo mês.
O Problema não é a Qualidade, é a Quantidade
Vamos deixar uma coisa clara: Game Pass e PS Plus Extra são serviços incríveis. Pelo preço de um jogo AAA por ano, você tem acesso a centenas de títulos, incluindo obras-primas indies, clássicos e até lançamentos day-one (no caso do Game Pass).
O problema é que nosso cérebro não foi feito para lidar com abundância infinita.
Existe um estudo clássico de psicologia comportamental (feito com geleias num supermercado, acredite) que provou: quanto mais opções você oferece, menos as pessoas compram. A paralisia da decisão é real. Quando você tem 6 opções, escolhe uma. Quando tem 24, desiste.
Agora imagina isso com 400 jogos. Cada um com trailer, nota no Metacritic, opiniões divididas no Reddit. Você quer fazer a “escolha certa”, não desperdiçar suas poucas horas livres num jogo “meia-boca”. Resultado? Você não escolhe nada e vai assistir série.
A Ilusão do “Vou Jogar Depois”
Levanta a mão quem tem mais de 30 jogos na biblioteca do Game Pass e PS Plus Extra marcados como “Adicionar à Biblioteca” e nunca abriu nenhum.
Eu tenho 47. Quarenta e sete jogos que eu “salvei para jogar um dia”. Spoiler: esse dia nunca chega.
A psicologia por trás disso é cruel: o ato de adicionar o jogo à biblioteca já te dá uma micro-dose de dopamina. Seu cérebro interpreta como “missão cumprida”. Você sente que fez algo produtivo (garantiu o jogo antes que saia do catálogo), mas não precisa do esforço de realmente jogar.
É o equivalente digital de comprar um livro e deixar na estante. A intenção estava lá, a execução… nem tanto.
O Medo de “Desperdiçar” a Assinatura
Outro efeito colateral tóxico: a culpa do assinante.
Você paga R$ 50,00 por mês (ou mais, dependendo do tier). Seu cérebro faz a conta: “Preciso jogar pelo menos 3 jogos por mês para valer a pena”. Aí você força a barra, baixa um jogo que não te interessa tanto só porque “tá lá”, joga 40 minutos sem vontade e desiste.
Pior ainda: você deixa de comprar aquele indie de R$ 30,00 que realmente te chamou atenção porque “não faz sentido comprar jogo tendo assinatura”. Resultado? Você não joga o que quer, e não aproveita o que tem.
É a armadilha do custo irrecuperável (sunk cost fallacy) aplicada ao entretenimento. Você não tá jogando por prazer, tá jogando por obrigação financeira.
A Solução (que ninguém quer ouvir)
Aqui vai minha opinião impopular: cancele a assinatura.
Não para sempre. Mas por uns 2 ou 3 meses. Sério.
Quando você não tem um catálogo infinito te encarando, você volta a ter foco. Compra (ou pirateia, não vou julgar) um jogo que você realmente quer. Joga ele até o fim. Sente o gostinho de completar algo.
Depois, se fizer sentido, volta para a assinatura. Mas com uma regra de ouro: escolha UM jogo por mês. Só um. Ignore o resto. Trate o Game Pass e PS Plus Extra como se fosse uma locadora dos anos 90: você entra, pega um título, leva pra casa e joga até enjoar.
Se você não conseguir escolher um jogo em 10 minutos, use o método da moeda: cara ou coroa entre dois finalistas. Parece idiota, mas funciona. A decisão importa menos do que você pensa. O que importa é jogar.
Exemplos Reais de Quem Escapou da Fadiga
Conversei com alguns amigos gamers que conseguiram sair desse ciclo. As estratégias variam, mas o padrão é o mesmo: limitação autoimposta.
- João (34 anos, pai de dois): Criou uma regra: só pode adicionar um jogo novo à biblioteca depois de zerar o anterior. Resultado? Ele finalmente terminou Hades, Hollow Knight e Ori em sequência.
- Mariana (28 anos, designer): Cancelou o Game Pass e voltou a comprar jogos físicos usados. “Quando eu gasto R$ 80,00 num jogo, eu jogo ele até o fim. Quando é ‘de graça’, eu trato como descartável.”
- Eu mesmo: Criei uma pasta chamada “Foco” no Xbox com apenas 3 jogos. Escondi o resto. Funciona.
Para mais dicas sobre como organizar seu backlog e aproveitar melhor os portáteis, confira nosso guia sobre emuladores no celular vs. portáteis dedicados.
O Futuro das Assinaturas (e o que a Indústria não quer admitir)
A verdade inconveniente é que os serviços de assinatura não foram feitos para você jogar mais. Eles foram feitos para você pagar mais.
O modelo de negócio ideal para Microsoft e Sony é: você assina, usa pouco (para não sobrecarregar os servidores), mas não cancela (porque “um dia eu vou jogar aquele jogo”). É a academia que você paga e vai 2 vezes por ano.
Dados da indústria (disponíveis em relatórios como os da Newzoo) mostram que a maioria dos assinantes joga menos de 5 jogos por ano dentro do catálogo. Mas continua pagando.
Não é culpa sua. É design de produto. Eles sabem exatamente o que estão fazendo.
Conclusão: Menos é Mais (de Novo)
A ironia cruel de 2026 é que temos acesso a mais jogos do que qualquer geração anterior, mas jogamos menos do que nunca.
Game Pass e PS Plus Extra são ferramentas incríveis, mas como toda ferramenta, o valor está no uso consciente. Se você tá pagando e não jogando, não é preguiça. É sobrecarga cognitiva.
Minha sugestão final: trate a assinatura como um buffet. Você não precisa provar todos os pratos. Escolhe dois ou três que te chamam atenção, saboreia com calma e vai embora satisfeito.
O resto? Deixa lá. Sempre vai ter jogo. O que não volta é o seu tempo livre.
